27 Jun
Originalmente publicado no site YôgaAntigo.com
“Qual o principal objetivo pelo qual você pratica ou deseja praticar Yôga?”
Com esta pergunta o site Yôga Antigo fez sua pesquisa para levantar qual a motivação das pessoas para a prática. Para os curiosos, vamos logo aos números:
Total de Votos: 197

Com estes números você pode tirar suas próprias conclusões, o importante a ressaltar é que sempre que desejamos fazer algo, seja Yôga, Dança, Línguas, etc… sempre escolhemos pelo emocional. Calma, eu explico melhor.
Existem basicamente dois tipos de pessoas que procuram o Yôga: o que não sabe exatamente o que é, nunca praticou, mas tem uma certa afinidade pela filosofia; e aquele que procura o Yôga por um motivo específico, ele quer fazer Yôga porque é bom para a coluna, por ser bom para a mente, por que o médico recomendou, etc.
Estes 6 anos de experiência me mostraram que o segundo tipo fará algumas aulas e acabará desistindo. O primeiro, mesmo que de forma intermitente, continuará no Yôga por muito tempo. Claro que existem exceções em ambos os lados.
No primeiro caso ocorre que de alguma forma nosso emocional é ativado para que gostemos de determinada arte, seja Yôga, Dança, Línguas, etc. Este processo nos deixa sem muitos recursos racionais para explicarmos nosso gosto. Sempre acabamos por nos apoiar em algum motivo como os descobertos na pesquisa, mas no fundo, se tirarmos esses motivos teremos uma única razão emocional: porque gostamos! Inclusive isso esconde algo mais inconsciente, que é nosso desejo latente de nos descobrirmos.
O engraçado é que somente com a experiência que o professor poderá identificar qual aluno está falando: “quero fazer Yôga porque gosto!” não é do tipo que vai parar daqui a um mês daquele que diz “quero fazer Yôga pois meu médico recomendou” e se tornará um entusiasta pela filosofia. O que quero dizer é, aquilo que a pessoa diz não necessariamente condiz com o verdadeiro impulso que a levou a prática.
O que mantém as pessoas no Yôga não são os efeitos ou os motivos, mas o conteúdo que ele gera dentro de nossos corações.
27 Jun
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I-2 Yôgashchittavrittinirôdhah
Nesta pequenina frase, está encerrado a demonstração que o desenvolvimento dentro do Yôga deve ser multilatera, no sentido de que não podemos só fazer meditação, ou só fazer ásanas (técnicas corporais), ou só isso, ou só aquilo. Temos que nos desenvolver como um todo e o Yôga supre essa necessidade. Swámi Shivánanda, mestre hindu já dizia em sua autobiografia: “Todo o desenvolvimento unilateral é pernicioso”.
Imagine alguém que faz musculação somente no braço direito (como no filme A Dama da Água), este indivíduo estaria plantando a semente de algum problema futuro, pois um braço mais pesado do que o outro poderia gerar algo na coluna, entre outras coisas. Isso acontece na mesma medida naquela pessoa que somente quer exercitar o cérebro e o corpo fica a ver navios. Uma pessoa assim não será saudável para o resto da vida a não ser que troque hábitos. O mesmo acontece com o Yôga, só meditar, ou só fazer respiratórios, a longo prazo gera algum tipo de desordem. Qual? Prefiro não descobrir!
Voltando ao Yôga Sútra. No sútra I-2, podemos concluir que o yôga tem um desenvolvimento multilateral. Neste sútra Pátañjáli define o que é Yôga. Então vamos ver:
Yôga: da raiz yuj, juntar, unir, manter ligado. União.
chitta: (algo que foi) percebido, mirar, desejar por, (algo que) apareceu, visível, estar presente, observação, pensamento, imaginação, intenção, foco, desejo, o coração, mente, memória, inteligência, razão.
vritti: rolar, rolar a baixo, modo de vida, conduta, curso de uma ação, comportamento, prática comum, regra, modo de ser, natureza, atividade, função, estado da mente.
nirôdha: confinamento, trancar em algum lugar, estar preso, supressão, controle, repressão, destruição.
Veja algumas traduções:
DeRose: Yôga é a supressão da instabilidade da consciência.
Vivêkánanda: Yôga é impedir que a matéria mental tome formas variadas.
Eliade: Yôga é a supressão dos estados de consciência.
Padmánanda: Yôga é o controle das idéias do espírito.
Essa aparente discrepância é causada pela riqueza da lingua sânscrita e é isso que vamos analisar agora para que possamos entender com uma maior amplitude o significado.
É o complexo mente-personalidade. Quando dizemos chitta estamos nos referindo ao ahamkara (ego), buddhi (inteligência supra-intelectual), manas (mente). Se olhar nas traduções que disponibilizo, há uma série de palavras para definir chitta. Quando os autores citados elegera uma palavra para definir chitta, eles automaticamente tiveram que excluir todos os outros sentidos, já que em nossas linguas modernas não temos um termo que defina exatamente chitta. Não foi por mal, cada qual escolheu o termo que achou melhor se encaixar.
São movimentos, instabilidades para um sádhaka (praticante de yôga) mas para um não iniciado é simplesmente o seu modo de vida. Como pode constatar, vritti é movimento, modo de ser, curso de uma ação. O conceito de instabilidade se dá ao yôgin que está fazendo com que estes movimentos entrem em um determinado padrão e quando isso não acontece chama-se de instabilidade. É como se o yôgin quisesse andar em uma linha reta e a cada passo fora dessa linha fosse um vritti e uma pessoa não-yôgin trilhasse outro caminho aos quais onde seu pé está não é importante.
Assim o não-yôgin dá passos em uma direção e o yôgin passos em outra, ambos saem de seus caminhos eventualmente, mas só o yôgin vai classificar aquilo como instabilidade ou dispersão.
Os chittavritti são todos os movimentos causados pelas estruturas que compõem chitta: o modo de ser da mente, movimentos do ego, a atividade do intelecto, etc. Para um samsárin (não-yôgin) esses movimentos, atividades e modos de ser, são percebidos por ele como sua própria forma de ser. O “como eu lido com as coisas”. Somente um iniciado consegue perceber esses movimentos como uma forma de instabilidade ou dispersão pois lhe tiram do seu foco, de sua meta que é um estado expandido de consciencia: o samádhi.
Nirôdha é supressão, mas encerrando um sentido de manter algo em determinado formato. Final de contas quando suprimimos o passo fora de uma linha estamos nos mantendo dentro dessa linha. Esse sentido inclusive é usado nas outras possibilidades de tradução: cerco, restrição, confinamento, etc. Assim podemos pensar que fazer nirodha nos chittavrittis é mantê-los em um determinado formato. E como chitta é muito mais do que somente mente, vamos precisar de técnicas que atuem no ego, na mente, no intelecto, em determinadas partes do emocional, enfim, não podemos somente usar um ramo de técnicas que atue na mente, pois assim ficará muito mais difícil fazer “nirodha” em todo o resto que não está sendo treinado diretamente para manter uma linha.
Todo o arcenal de técnicas que o Yôga dispõem como: vocalizações, mentalizações, meditação, técnicas de limpeza, técnicas corporais, linguagem gestual, etc. Tudo influência uma parte de chitta para que seus movimentos (vrittis) entrem em um determinado formato (nirôdha). Somente fazer um único tipo de técnica irá deixa uma área bem desenvolvida e outra sem cuidado algum. Algo como construir um prédio se preocupando mais com a decoração do que com o aço das fundações.

Para descontrair
Filme citado: A Dama da Água. Veja o que acontece com quem treina somente um braço. A história é a mais poética e linda que eu nos últimos tempos vi. Veja a oferta no submarino.com.
25 Jun
Os primeiros Yôgas a surgirem eram de linhagem tantrica, ou seja, com características matriarcais sensoriais e desrepressoras. Com o advento das invasões arianas, a cultura do povo dominado foi entrando para o ostracismo e o Yôga somente sobreviveu pelo trabalho de sábios como Pátañjáli.
O Codificador do Yôga clássico deixou registrado em seu tratado a mudança da tradição tantrika para a brahmácharya já nos primeiros sútras. Para entendermos isso vamos dar uma olhada no primeiro sútra na variaçao da Yôgashara Upanhishad e na do Yôga sútra novamente.
Athatê Yôgam vyákhyásyámah - Yôgashara Upanishad.
Atha Yôgánushásanam - Yôga Sútra.
Yôga Sútra
Atha: Agora, de forma auspiciosa. Um “agora” que é usado para demostrar a importancia do que será dito.
Yôga: da raiz yuj, juntar, unir, manter junto no sentido de união. Mas união com o que? Nos sútras vindouros Pátañjáli descreve essa união.
anushásana: instrução, direção, comando, precepção. Se é uma precepção precisa de um preceptor, demonstrando levemente que para aprender Yôga é necessário um mestre. Vejamos um quadro para elucidar melhor:

Shásana vem da raiz shas que designa cortar. As raizes servem para formar várias outras classes de palavras no sânscrito, como substantivos, adjetivos, verbos e etc. Da raiz shas surgem, entre outros, as palavras shásana, shastra e shástra.
Não confunda shástra com shastra. São muito parecidos, mas designam coisas diferentes como sábio e sabiá. Fica até interessante ver a origem do termo espada (shastra) pois tra é instrumento e shas cortar, instrumento de cortar. Shástra é um manual, uma escritura, um tratado. O Yôga sútra é um tipo de shástra.
Perceba como shásana pode ser traduzido tanto como ensinamento, instrução e também castigo, punição, etc. Anushásaná dá margem a entender o ensinamento como uma forma de punição, como uma correção feita aquele ignorante que é chicoteado com o conhecimento, revelando uma influência repressora advinda do brahmáchárya. Se não bastasse isso.
Yôgashara upanishad
Athatê: verbo na terceira pessoa do singular na voz média: agora é o:
Yôgam: é o mesmo que acima, declinado para indicar que este é o objeto da frase.
vyákhya: explicação em detalhe, relato
yáma: muito parecido com yama (dos yamas e niyamas), mas designa movimento, curso (direção), charrete.
Os dois sutras são muito parecidos, ambos podem ser traduzidos como Agora o ensinamento do Yôga. O da Yôgashara upanishad dá uma conotação de explicação e Pátañjáli usa o termo anushásana que pode ter uma conotação dura e severa. Pela troca intencional ou não do termo vyakhyásyáma por anushásana podemos pensar que Pátañjáli quis demonstrar que tinha “acabado a moleza” e o Yôga tinha ficado a altura de um árya.
É claro que não podemos descartar a possibilidade de uma simples troca gramatical por causa da diferênca de idade dos dois textos. Afinal sabemos que basta um século para uma lingua trocar completamente sua forma de utilização. Não acredita? Leia os textos do Brasil colonial e veja se consegue entender aquele português que está somente duzentos anos atrás.
24 Jun
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I-1 Atha Yôgánushásana
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I-1 Yôgash chittavrittinirôdhah
Uma tradução possivel para estes dois sutras é: I-1 - Agora o ensinamento do Yôga. I-2 - Yôga é a supressão da instabilidade da consciência (tradução do Prof. DeRose). Esta forma de dizer sobre o que irá dizer e logo após dar uma definição demonstra um raciocínio muito lógico, característica do sámkhya.
Sámkhya quer dizer número, no sentido de enumeração. A tradição sámkhya é naturalista, ou seja, atribui a causas naturais todos os efeitos. A tradição oposta a ele é o Vêdánta que é espiritualisa, atrubuindo causas sobre-naturais a todos os efeitos. Agora você pode estar se perguntando quem é que em sã consciência atribuiria causas sobre-naturais as coisas? Pois bem, nossa sociedade faz isso o tempo todo, basta alguém dizer: “foi vontade de Deus…” esse é um exemplo dentro de nossa cultura ocidental. O Vêdánta é assim. O Yôga pode ser de linha Sámkhya ou Vêdánda. Para dar um exemplo concreto, imagine um respiratório que almenta a quantidade de oxigênio no sangue. Essa quantidade extra causa percepções mais sutis nos sentidos causando uma sensação de euforia imediata. Um Yôgin de tendência sámkhya iria atribuir a sensação ao fato de ter respirado diferente. Um Yôgin de tendência vêdánta poderia atribuir aquilo a um contato divino ou a uma elevação do espírito. Quem está certo? Os dois. São só pontos de vista e explicações para as consequências da prática, mas a técnica em si, o Yôga, permanece inalterado. O problema é que nós ocidentais confundimos os meios com os fins e com as explicações e achamos que tudo é a mesma coisa gerando a barafunda que faz com que cada um tenha uma opinião diferente.
Nos textos sámkhyas sempre começam dizendo o que irá ser tratado e definindo cada um dos termos, assim como muitos filósofos modernos. Já um texto vêdánda começa fazendo uma exaltação a uma divindade. Esta forma de anunciar e depois definir vai se extender até o final do tratado de Pátañjali. Os termos empregados são os de escolas reconhecidamente sámkhya. Por fim, podemos concluir que realmente o Yôga que Pátañjáli deixou para a posteridade é naturalista.
24 Jun
I-1 Atha Yôgánushásanam.
I-2 Yôgashchittavrttinirôdhah
Já é consenso entre os estudiosos que Pátañjali não criou o Yôga, nem introduziu nada de novo, ele simplesmente fez a primeira compilação de técnicas, criando um sistema que hoje chamamos por vários nomes como descrevemos anteriormente.
Nestes sútras ele deixa a pista de que baseou seu tratado em outros textos, já que este começo é encontrado na Yôgashara Upanishad e irá discorrer sobre técnicas e preceitos já existentes na literatura hindu de 400 a.C. Compare a segunda estrofe da Yôgashara Upanishad publicada no livro Ten Upanishads de Swámi Shivánanda com o segundo sútra de Pátañjali:
Yôgashara Upanishad: 
Yôga Sútra: ![]()
Mesmo que não saiba ler dêvanágari, poderá concluir por si que é exatamente o mesmo e por que alguém que supostamente criou algo copiou de um texto mais antigo exatamente com as mesmas palavras a definição de Yôga? Só posso concluir que ele queria deixar registrado que seu trabalho não se tratava de nenhuma novidade e sim que estava fazendo algo baseado em tradições mais antigas.
Sobre os outros tópicos, vou fazê-los nos posts seguintes pata este não ficar demasiadamente comprido.
24 Jun
Este trabalho vem sendo feito por mim e a Instrutora Júlia Teixeira a alguns meses. Assim que conseguir um foto dela postarei na seção Fale Comigo para que se você quiser conversar com ela possa também. Vamos ao trabalho.
O Yôga Sútra é uma obra escrita por volta do século III a.C. na região que hoje é chamada de Índia por um sábio chamado Pátañjáli. A época em si é controversa, autores europeus atribuem a escrita do tratado por volta do século IV d.C. Enquanto os acadêmicos se degladeiam por causa de datas nós podemos debater sobre o que importa mesmo, o conteúdo do tratado de Pátañjali.
Em seu tratado Pátañjáli não deu nenhum nome ao Yôga que estava descrevendo, logo, cada um deu o nome que quis. Yôga de Pátañjáli, Rája Yôga, Pátañjála Yôga, Pátañjáli Raja Yôga, Ashtánga Yôga, Yôga Clássico, Yôga Darshana são algum dos nomes. O que importa é que ele tenha as partes definidas pelo seu codificador:
Se por ventura você praticar Ashtánga Yôga e nunca sequer tiver ouvido falar em código de ética ou em bom sânscrito: yamas e niyamas, pode saber que o que está aprendendo é um Ashtánga Yôga moderno e não aquele sintetizado por Pátañjáli.
O mesmo acontece com os Yôgas Classicos ensinados fora desta estrutura descrita por Pátañjali. Pode saber que está aprendendo um Yôga Clássico “Moderno”.
24 Jun
Olá! Neste blog colocarei tudo aquilo que já escrevi e irei escrever sobre toda a Cultura do Swásthya Yôga.
Os dois projetos principais deste blog são: Comentários do Yôga sútra e Características de um Yôgin.
Esta é uma área a qual você pode me ajudar a corrigir meus trabalhos, se achar algum erro, algo que precisa de uma maior atenção, por favor deixe eu ficar sabendo.
Abraços.