Swásthya Yôga - A Cultura

Archive for July, 2007

Os seres humanos usam símbolos a muito tempo, provavelmente os símbolos surgiram junto com os primeiros hominídeos a pisar na terra.

Os símbolos foram criados pela necessidade de nos comunicarmos. Criamos um meio de com uma simples figura possamos resgatar em nossa consciência uma quantidade muito grande de informações. Como uma chave que abre um baú cheio de pergaminhos.

A publicidade sabe muito bem como impregnar em um ícone atributos conscientes e inconscientes para que eles funcionem como um yantra.

logo da nike

Este símbolo conscientemente lhe diz que é a marca da Nike (Trademark, com todos os direitos reservados a Nike). Você já associou isso a esportes, calçados e etc. Nesse exato instante seu inconsciente já fez as associações que os publicitários deixaram implícito na propaganda através dos atributos que o esportista tem, como por exemplo, fama, dinheiro, beleza, etc. Gerando empatia com o maior numero de pessoas que se identifiquem com um ou mais atributos daquele esportista.

Um pequeno símbolo, que comunicou muito de forma mais eficiente do que se tivéssemos lido todas as informações em um jornal. Isto é um yantra, um mecanismo que através de um símbolo nos causa reações conscientes e subconscientes.

Algumas traduções possiveis da palavra yantra são: nome de algum instrumento para segurar, suporte, barreira, nó, traço, instrumento cirurgico, qualquer instrumento ou aparato, motor, mecanismo, força, etc.

O poder do yantra vem do número de pessoas que através do tempo utilizaram-no, reforçando seus atributos. Nos dias de hoje isso é chamado de marca e este mecanismo é tão poderoso que vale muito dinheiro! É só pegar os “yantras” de companhias como Coca-Cola, Microsoft, Nike, Google, etc. Somente a marca já vale milhões.

Simbolo do Yôga, o Ôm

Ôm
Símbolo universal do Yôga e do hinduismo para todas as escolas e épocas.

É o mais conhecido yantra do Yôga, traçado chama-se ômkara pronunciado chama-se pranava. Este símbolo é tão antigo que sua origem é incerta. Podemos dizer que ele vem de um período tão antigo como as primeiras civilizações que habitaram o local que hoje é chamado de Índia, em um período anterior a invasão ariana. Sua escrita curvilínea em nada se assemelha ao traçado retilíneo do dêvanágari que é o alfabeto utilizado para escrever sânscrito.

Traçados do Ôm

Aqui a progressão de como o símbolo curvilíneo foi sendo transportado a forma retilínea do dêvanágari. O comum em textos filosóficos é ter o Ôm no seu original arcaico e curvilíneo. A outra possibilidade é que no dêvanágari o Ôm era escrito como na última possibilidade e com o tempo houve uma adaptação que mesclou o traçado curvelíneo com o retilíneo.

A silaba do Ôm é composta pela união de três sons: A + U + M. A união do `A` com o `U` gera o som de “ô” fechado, contudo em alguma época existiram autodidatas que aprenderam este mantra somente lendo textos antigos sem nenhum professor que lhes mostrasse o som, por conseqüência esta deturpação foi passada adiante instaurando a confusão do AUM. É muito comum encontrar livros que sequer mencionam Ôm, somente utilizam AUM. Outros autores defendam a existência dos dois, o que é verdade, pois os dois mantras existem, mas não são a mesma coisa: o Ôm é considerado o som do universo, já AUM é o som de uma pétala do anahata chakra. Existem também autores que por motivos de transliteração escrevem AUM explicando que ele deve ser lido Ôm.

O erro de confundir o Ôm com AUM já passou de uma geração para outra e acabou se instaurando como uma verdade. Para aqueles que conhecem os princípios do mantra sabem que uma coisa é pronunciar Ôm e outra bem diferente é vocalizar AUM.

  • au.jpg - vogal au.
  • ofechado.jpg - vogal o

No dêvanágari existem as vogais ô e au como podemos observar para que pronunciemos o som `au` é necessário assinalar isto na escrita.

Em um ambiente filosófico podemos definir o Ôm como o corpo sonoro do Absoluto. Em um ambiente mais leigo é preferível dizer que o Ôm é o símbolo do Yôga e do hinduísmo, a não ser que você queira dar aula explicando o conceito de absoluto, corpo sonoro e mais um monte de questões que seu interlocutor fará.

O Ôm é descrito em algumas upanishad como sendo o alento de Brahma, que erroneamente é traduzido simplesmente como Deus. Digo erroneamente, pois traduzir Brahma como Deus é deturpar a cultura Hindu fazendo-a encaixar-se dentro de nossos paradigmas judaico-cristãos criando mais frenesy ocidental em achar que “tudo é a mesma coisa”.

A uchandôgya upanishad afirma que do Ôm emergiu o traya vidya, os três vedas: rig vêda, sama vêda, yajur vêda. Ao pronunciar o Ôm estaríamos recitando todos os três vêdas. Para se ter uma idéia do que isso representa cada vêda é separado em brahmanas, mantras, aranyakas e upanishads que por sua vez são compostos por um sem número de textos. Imagine nesses 500 anos de história brasileira, só no legislativo quantas leis foram feitas? Quantas constituições, decretos, códigos. Imagine quando tivermos 2000 de Brasil, imprima todas essas leis e coloque em estantes. Vai ocupar mais ou menos o tamanho dos vêdas.

Em muitas upanishads e shastras o Ôm está ligado a forma mais fácil, rápida, segura, precisa, importante, etc., para se chegar a ao samádhi.

Representa também os três gunas: tamas, rajas e satwa; a trindade hindu: Brahma, Vishnu e Shiva; os três estados de consciência: vigília, sono e sonho; criação, manutenção e destruição – não por acaso também os atributos da trindade hindu.

No Ômkara encontramos as seguintes partes:

  • a‑kara (literalmente: manifestação do “a” ou som do “a”)
  • u-kara
  • m‑kara (aqui está dizendo o som do bindu, que é um som de “hmmmmm”)
  • bindu (ponto, aquele que fecunda o som),
  • Ardhachandra (lua crescente)
  • náda (som latente)
  • nádanta (sonoridade)
  • shaktí (poder, energia)
  • vyapini (aquele que se espalha)
  • samna (um tipo de métrica)
  • unmana (uma forma de valor, preço ou peso)

Medalha do Ôm

Você pode ter uma medalha com o símbolo do Ôm, veja como.

medalha_bronze_1.gif

Para finalizar

Todas essas informações são meros fogos de artifício para saciar nossa sede por simbolos e significados, mas todas elas sem a prática do Yôga não vão resultar em nada, só acumulo de conhecimento, no máximo alguns minutos de atenção em uma roda de amigos. Divirta-se com estas informações, mas faça Yôga!

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  • Comentários dos Sútras I-9 - Vikalpa

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    shabdajñánánupátivastushúnyôvikalpah

    Vikalpa, literalmente é falsa noção, indecisão, dúvida. É definido com a voz (shabda) da ignorância (jñánánipati) destituida de realidade (vastushunya).

    Outras traduções possíveis:

    Shabda: língua, palavra certa, som.
    Jñánánupati: a não produção de conhecimento.

    Vikalpa está ligado ao boato que é assimilado como verdade. Considere o peso destas duas informaçòes:

    A ciência: O ovo faz mal pois tem colesterol.

    O curandeiro: O ovo faz mal pois o espirito que ali habita cobra a reparação pela destruição de sua morada.

    A questão aqui não é qual opinião está certa ou errada. O acreditar e retransmitir qualquer uma destas informações sem termos por nós mesmos confirmado a realidade delas gera o vikalpa, a noção errada.

    Para um exemplo mais próximo ao dia-a-dia: eu, que sou seu amigo, falo que Fulano é mesquinho. Você que não conhece Fulano, passa a tratá-lo mal e pior, distribui esse vikalpa (noção errada) para outras pessoas. Nesse sentido a tradução de DeRose é fantástica ao traduzir o sutra como: “Conhecimento baseado na imaginação” pois encerra tudo o que dissemos.

    Vikalpa está na transmissão ou assimilação de uma informação inverídica e a atribuição de veracidade a tal informação.

    Comentários dos Sútras I-8 - Viparyaya

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    Viparyayô mithyájñánamatadrúpapratishtham

    Viparyaya é literalmente inventido, pervertido, contrário. Nos sútras é definido como mithyajñána, conhecimento (jñána) contrário, falso, inverso (mithya). Este conhecimento falso é devido a uma percepção errada, a não atenção a fidelidade (pratishtha) a real forma (rúpa).

    Aqui rúpa não está somente ligado a uma forma visual, mas a um contexto muito mais abrangente englobando cada percepção como uma forma. Por exemplo: o animal que tenha vermelho e preto fortes em sua coloração está dizendo aos inimigos que ele é venenoso: não me coma! Quão quanto muitos animais somente tenham as cores mas nenhum veneno. A real forma (rúpa) da cor é só uma percepção visual e não o veneno em si.

    Uma mera cobra d’água dentro de uma piscina embutiria medo pois a forma (rúpa) de cobra em nosso imaginário está ligado a perigo. Essa interpretação da forma sem a lealdade (pratishtha) a natureza real (rúpa) da cobra d’água é viparyaya.

    É considerado um vritti (movimento, dispersão) pois, voltando ao exemplo da cobra na piscina, este conhecimento incorreto (viparyaya) iria gerar agitação mental, agitação emocional: medo e agitação física: sair correndo. Toda essa atividade é uma forma de vritti, não que seja ruim sair correndo de uma cobra, lembre-se que o próprio Pátañjali diz que alguns dos vrittis são dolorosos e outros não dolorosos.

    Comentários dos Sútras I-7 - Pramána

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    Pratyakshánumánágamáh pramánáni

    Pramáná é aquilo que é percebido (pratyaksha); a reflexão e considerações que nos levam a chegar a uma conclusão a partir de uma premissa (anumána); e o estudo, a aquisição de conhecimento e a ciência (agáma).

    O conceito de pramána refere-se ao processo pelo qual aquilo que nossos sentidos podem perceber se ligam com informações que já foram percebidas anteriormente nos levando a uma conclusão, ação, atitude, etc. Assim também inclui nossa capacidade de aprender coisas novas, de estudar, de adquirir conhecimento seja pelo meio que for.

    Não confunda pramána com mente, raciocinio, lógica, etc. Eles são frutos do pramána. O termo em si está se referindo a um processo de nossa consciência. Lembre-se que estamos estudando os vrittis, os movimentos da consciência e o pramána é um destes movimentos.

    Comentários dos Sútras I-6

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    Pramána viparyaya vikalpa nidrá smritayah

    São elencados os cinco tipos de vritti. Como não há o que comentar sobre uma simples enumeração vou deixar registrado os vários significados dos cinco termos para referência futura.

    Pramána: medida, escala, padrão, qualquer tipo de medida de: tamanho, extensão, tempo, circunferência, distância, peso, quantidade, duração, etc)
    viparyaya: invertido, pervertido, contrario.
    vikalpa: variação, falsa noção, indecisão, dúvida, ocupação mental.
    nidrá: sono, sonolencia, fazer dormir.
    smrita: lembrança, relembrado.

    Comentários dos Sútras I-5

    I_5_vrttayah_panchatayya_klishtaaklishtah.gif
    Vrittayah pañchatayyah klishta aklishta

    Pátáñjali classifica os vrittis em cinco categorias (pañcha) e considera que alguns são dolorosos (klishta) e outros não (aklishta). Encontramos no sânscrito uma peculariedade parecida com o português: a negação do termo através do prefixo “a”. Ex: moral, amoral, temporal, atempora, etc.

    Klishta vem da raiz kliS (perigo; sofrimento, agonia, afligir, agoniar) e recebe diretamente os significados de sua raiz. Quando falamos que um vritti é prazeiroso ou doloroso estamos afirmando somente uma constatação de como o yôgin ou o samsárin (não-yôgin) percebe estes movimentos da consciência chamados de vritti. A questão é que pelo paradigma cultural ocidental, devemos nos afastar do “mal” e aproximarmo-nos do bem. Contudo faz parte da evolução do Yôgin passar pelas duas cadeias, tando a boa quanto a ruim, pois em termos universais esta dualidade é uma mera opinião e não uma realidade. Todo evento pode ser considerado bom ou ruim, prazeiroso ou doloroso, tudo dependerá de quem o interpreta. Veja sobre o bem e o mal explicados a partir da tolerância.

    Comentários dos Sútras I-4

    I_4_vritti_sarupyam_iataratra.png
    Vritti sárúpyam itaratra

    Caso não fizermos nirôdha nos chittavritti, seja por não sermos iniciados em como fazê-lo, seja por não conseguirmos, então (itaratra) ficaremos na forma (sárúpyam) do vritti.

    Este sútra fundamenta nosso pensamento sobre os chittavrittis explicados nos dois primeiros sutras. Se você não está no estado denominado chitacritti nirodhah, então você é os próprios vrittis.

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    Comentários dos Sútras I-3

    I_3_tada_drashtuh_swarupe_vasthanam.png
    Tadá drashtuh swárúpê’vasthánam

    Quando completarmos a missão de fazer nirôdha nos chittavritti, então (tadá) a real forma (swárúpa) daquele que vê (drashtu) tomará o lugar (avasthana) dos chitavritti.

    Aquele que vê, o vedor, é uma referência ao púrusha, o princípio consciênte, a causa não causada primeira do universo. Este conceito pode ser confundido pelo leigo com o conceito de Deus judaico-cristão, mas esta relação é imprecisa já que para aquelas cosmogonias Deus criou tudo e para o sámkhya o púrusha não criou nada já que ele é pura consciência e estabilidade, sem nenhum movimento ou ação.

    O máximo que poderia haver é uma confusão com com o princípio criador chamado prakriti (natureza), mas mesmo assim haveriam alguns entraves pois a prakriti é um princípio feminino e o princípio Deus é masculino. São duas formas de ver o universo completamente diferentes.

    O Sámkhya em vários momentos deixa transparecer que nasceu em sociedades matriarcais. Seu pensamento é baseado na observação e como os povos daquela época viam que quem gestava as novas vidas eram as fêmeas das espécies, então, devem ter montado seu pensamento atribuindo a criação de todo o universo por um princípio feminino junto com um princípio masculino (púrusha).

    O conceito de observador, aquele de vê, vedor, é recorrente no Yôga Sútra e explicado mais a frente.

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