3 May
No I-23 é apresentado mais uma forma de chegar ao samádhi, através de Íshwara pranidhána.
Pranidhána literalmente é manter-se fixo em algum lugar, também pode designar a contemplação ou processo mental abstrato. Felizmente o autor define o termo no I-24.
Íshwara literalmente é aquele que é capaz. Foi definido no Yôga sútra como uma parte peculiar do púrusha (púrushavishêsha) que não é o púrusha puro (mrishta), no sentido de que não é a própria mônada, mas sim uma parte dela. Reside em um lugar (shaya) nem além nem atrás (apará) das conseqüências (vipáka) das ações (karma) e das aflições (klêsha).
Ishwára pranidhána também é a última proscrição ética, os nyamas que estão escritos no segundo livro do Yôga sútra.
Dentro do código de ética do yôga clássico o niyama íshwára praṇidháná pode ser interpretado de diversas formas. Estas formas de entendimento estão mais ligadas a bagagem cultural e ao sistema de crenças e valores do praticante do que realmente aquilo que Pátañjali quis dizer.
Para entendermos preciso que você se utilize do seu poder mental de criar conceitos abstratos assim como se faz necessário você não tentar encaixar estes conceitos em qualquer outro tipo de sistema de crença ou valores.
É comum as pessoas quererem traduzir íshwara de forma simplória: “entregar a deus”.
Vamos aos pontos:
Karma é o conceito de ação e reação. Não tem nada haver com destino. É simplesmente a constatação de que tudo o que você fizer gera conseqüências. Ao movimentar o seu braço você desloca o ar e este irá mover a poeira que está sobre a mesa que por sua vez cairá dentro do copo do suco que você tomará, a poeira será digerida e sabe-se lá o que mais irá acontecer pelo simples motivo de você ter movimentado o braço.
Klêsha literalmente designa aflição, vem da raiz klis que é dor, sofrimento. Ánanda é o estado de felicidade inefável. É um estado de consciência ao qual se vivencia a felicidade por ela mesma, sem nenhum motivo.
Klêsha é o estado oposto ao de ánanda e para chegar a este estado de felicidade inefável precisamos passar pelas cadeias do klêsha. É como a citação que diz: “a aquele que não só venceu as cadeias do mal, mas também as do bem: a este eu chamo de sábio”. O yôga vai levar o praticante a coisas boas, mas também o levará a enfrentar tudo aquilo pelo qual tentamos fugir: medos, anseios, coisas mal resolvidas, deficiências, etc. Tudo isso será um degrau na evolução do praticante e será necessário passar por estes klêsha para seguirmos em frente.
Agora preciso que você abstraia o seu pensamento e tente imaginar um estado de existência ao qual você continua emanando karma e klêsha, mas não está mais preso a conseqüência deles.
Vamos tentar colocar isso em termos do cotidiano para dar um exemplo de como fazer isso acontecer com pequenas coisas: você está prestes a ganhar uma promoção. Um não-yôgin ficará ansioso[1] (klêsha), tentará fazer alguma coisa a mais para impressionar, mas pela ansiedade faz coisas erradas e mal feitas[2] (karma).
Um yôgin continuará fazendo o que ele sempre faz, independente da promoção. Suas ações estão fora da expectativa de seus resultados. Junto a isso não se gera expectativas, ilusões, desalentos. Muito menos exaltação ao ganhar a promoção. O que será reforçado é a confiança e o poder que o yôgin tem.
Depois de saber tudo isso, vamos redefinir:
Íshwara praṇidháná pode designar tanto a tentativa (manter-se fixo) de vibrar na mesma tônica deste estado de consciência ao qual a conseqüência do karma e do klêsha não entra em questão, assim como pode designar o processo abstrato em si.
Íshwara praṇidháná está ligado a agir e não em reagir. Preciso da promoção, pois minha mulher ficou grávida e por isso preciso ganhar mais dinheiro. Isso é reagir. Agir seria fazer tudo o que lhe foi designado a fazer de forma perfeita e por acaso seus superiores quiseram lhe promover por verem em você uma atitude empreendedora e positiva. É acertar o alvo com a flecha de forma precisa por estar comprometido com todas as ações que envolvem atirar uma flecha menos uma: a intenção de acertar o alvo. É o comprometimento em fazer a ação de forma perfeita, independente do resultado dela.
[2] A conseqüência do klêsha gera ações (karma) atabalhoadas e os resultados delas não serão bons.
19 Dec
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Sthirasukhásanam
Ásana são as posições corporais que o Yôga se utilize para treinar não somente o corpo do praticante, mas também gerar estímulos no sistema endócrino, nervoso, muscular, circulatório e através de alguns recursos fortalecer a vontade, educar o emocional, poder de concentração e etc. As técnicas orgânicas do Yôga trabalham muito mais que músculos, articulações e flexibilidade. Através de um trabalho isométrico.
Em alguns ramos de Yôga moderno que perderam parte ou toda a sua carga iniciática os praticantes são levados a repetir as posições como uma aula de ginástica ou em séries de repetição como se faz na musculação.
Não estamos questionando a eficiência do método moderno de repetição, mas sim a sua utilização dentro do Yôga. Neste sútra temos a confirmação de que ásana é sinônimo de permanência e não de repetição.
Sthira é firme, duro, sólido, compacto, forte; fixo, imóvel, sem movimento, durável, permanente, sem mudanças, austero, rígido, constante.
Sukha é agradável, fácil, prazeroso.
Nesse sentido, o sútra é categórico ásana é permanente, estável, sem mudanças, logo: sem repetição.
Nesse sentido, o sútra é categórico ásana é permanente, estável, sem mudanças, logo: sem repetição. Precisa ser agradável (sukha), prazeroso, etc. Como prazer é muito subjetivo, você pode ter eximios praticantes de ásana que fazem coisas que seriam consideradas difíceis ou desagradáveis a outro praticante. O que não muda é o fato da permanência sem repetição.
Se o tipo de Yôga que você faz tem repetições não é a maneira antiga de se executar e sim uma forma adaptada para os paradigmas modernos.
15 Aug
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tatparam purushakhyátêrgunavaitrishnayam
Ao completar o ciclo de abhyása e vairághya para conquistar o nirôdha. o yôgin conquistará o conhecimento do púrusha (púrushakhyati) onde ele ficará indiferente (gunavaitrishnya) aos guna.
Guna literalmente é uma corda ou uma corda de instrumento musical. Mas dentro do sámkhya designa qualidade, peculiaridade, atributo, propriedade.
Designa o gunatraya, os três (traya) atributos ou qualidades presentes em todos os planos da Natureza. São eles: tamas, rajas, sattwa, inércia, movimento e estabilidade respectivamente.
A pronúncia destes termos é “támas”, “rajás” e “sat-tua” (com o ‘t’ mudo seguido de ‘tuá’).
Podemos analisá-los percebendo os gunas no corpo humano, onde os ossos e tendões que representariam o guna tamas são o que dão suporte ao corpo, são densos e no caso dos ossos são inertes. Os músculos o guna rajas, já que eles dão movimento (rajas) e os orgãos internos o guna sattwa já que eles mantém estáveis (sattwa) as funções necessárias a manutenção da vida.
Em uma pedra o guna predominante é o tamas, mas ela é feita de átomos que constantemente estão em movimento (rajas) e por fim esse movimento atômico é que mantém coeso (sattwa) os elementos que compoem a pedra.
Eles existem em todo o lugar e um guna ajuda ao outro a manifestar-se. Por exemplo, no caso da pedra. Se não fosse o movimento (rajas) dos átomos não poderiamos ter a pedra sólida e inerte (tamas).
Em outro exemplo. No vácuo do espaço onde não há atrito e longe de um campo gravitacional. Se jogarmos aquela mesma pedra que é inerte (tamas) ela entrará em movimento (rajas) e por não haver força alguma impedindo o movimento ela irá continuar infinitamente seu deslocamento, ou seja, ficará em um movimento contínuo e estável (sattwa).
Como vê, os gunas são as qualidades primordiais de qualquer manifestação da natureza. A princípio sem uma dessas qualidades (guna) nada no universo ficaria coeso e ele deixaria de existir.
Essa indiferença aos gunas constatada é justamente pelo ângulo de visão do yôgin. Quando ele está imerso nos gunas eles fazem parte de sua vida e para a maioria dos humanos nem é percebida. Um praticante que alcançou determinados níveis de consciência pode ver os gunas “do lado de fora” e percebe que a sua existencia nada mais é do que um mecanismo de manifestação da natureza e acaba se tornando indiferente a esse mecanismo.
Um exemplo do cotidiano: uma pessoa emocionada ao ponto de ficar descontrolada. Seu emocional está operando pelo guna rajas, tão imersa nesta qualidade que é capaz de contaminar os outros que estão a sua volta. Um yôgin indiferente aos gunas observará tal manifestação do guna rajas como um relojoeiro que observa as engrenagens que movimentam os ponteiros e não as horas que os ponteiros marcam.
11 Aug
Nossos sentidos percebem o mundo a nossa volta. Estas experiências sensorias são prazeirosas ou dolorosas. Independente a isso, nossa consciência quer repetir as experiências já vividas, há um desejo latente de reviver tais experiências sensoriais.
Imagine uma experiência prazeirosa. Um jantar romântico onde você apreciou aquele prato saboroso. Há inúmeras experiências acontecendo ao mesmo tempo. Sua consciência irá querer repetir a sensação, contudo, o momento é outro, talvez você só prove o prato e considere que está bom e pense que naquele dia, naquele restaurante foi muito melhor. Esse desejo por querer repetir a experiência mas não conseguir por faltarem elementos é apontado pelos sútras como a falta do vairághya.
Na prática do Yôga temos o mesmo efeito, quando executamos uma determinada técnica e temos uma vivência espetacular e no dia seguinte executamos a mesma técnica no afã de conquistar novamente aquela vivência e nos frustramos quando não conseguimos a mesma performance.
O que não levamos em consideração é que ontem tinhamos dormido melhor, trabalhado na quantidade certa, comemos batatas gratinadas, estudamos, fizemos natação e então executamos a técnica sem o afã de chegar a uma vivência e sim pelo simples fato de fazê-la. Isso é vairághya, o despreendimento.
Já no dia seguinte, todas as variáveis mudaram, o sono, a comida, o trabalho, o esporte, tudo. Ao chegar na prática fomos focados em repetir aquela sensação prazeirosa de ontem e acabamos por frustrá-la justamente por estarmos nos direcionando para o efeito.
Como se para chegar a Roma você tomasse um caminho repleto de flores e ao passar por elas se encantasse pela sua beleza. Em um outro momento ao tomar o mesmo caminho, desviasse sua atenção para o campo florido e acabasse não chegando a Roma e sim as flores.
Exercer o vairághya é tomar o caminho para Roma aproveitando a vista mas sem desviar o curso e parar nas flores. Isso não quer dizer que você não possa apreciá-las, simplesmente terá em mente que a meta é Roma e não as flores.
Esse desvio é causado pela nossa compulsão a aquilo que vem do reino dos sentidos (vishaya). O trabalho do Yôgin é justamente conseguir vivênciar aquilo que vem através de seus sentidos sem ficar desejando repetir a experiência. É tratar cada experiência como única e quebrar o ciclo vicioso de buscar a repetição de uma experiência sensorial.
11 Aug

sa tu dirghakalanaurantaryasatkárá sêvitô dridhabhúmih
No comentário I-12, afirmamos que o abhyása não somente é praticar, mas praticar por um grande período de tempo. Neste sútra há a confirmação de tal premissa.
Pátañjali afirma que a as partes do Yôga (drdhabhúmi) devem ser frequentemente (asêvita) obervadas (satkára) por um grande período de tempo (dírghakála) sem interrupção (narantarya).
Veja o exemplo dado no comentário I-12.
11 Aug
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tatra sthitauyatno’bhyásah
Yatna é o exercício da vontade e sthita é permanecer firmemente em algum lugar ou situação. Abhyása é manter a força de vontade direcionada. Faz referência justamente a prática constante para conseguir o estado de nirôdha
6 Aug
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abhyása vairágyábhyam tannirôdhah
O nirôdha vem através da (ábhi) sucessão initerupta (tan) do vairágya e do abhyása.
Literalmente, abhyása designa a repetição de um exercício ou hábito. Já vairágya é a indiferença para com aquilo que os sentidos percebem ou perceberam.
Quando fazemos um pránáyáma por exemplo, algumas vezes sentimos tédio. Achamos que já fizemos por muito tempo. Isso é a falta do vairágya, nossa mente não sabe o que quer, mas sabe que não quer aquela repetição infinita de mentalizações, respirações, etc. O vairágya é quando conseguimos ultrapassar essa fase de inquietação. Outra forma de vairágya é quando, por exemplo, fazemos um yôganidrá e temos uma vivência superlativa e em outro momento queremos repetir aquela vivência e acabamos por não conseguir justamente por estarmos muito conectados a uma vivência passada. Nesse sentido a dispersão é justamente a memória (smriti) daquela vivência boa. A indiferênça para com aquela vivência boa, a tal ponto de não querermos desesperadamente repetí-la é vairágya.
O Abhyása é a repetição de um determinado conjunto de técnicas por muito tempo, meses as vezes. Não é somente uma técnica, mas um sádhana, ou seja, um conjunto de técnicas para produzir determinados efeitos. Aqui é importante frisar que devemos ter uma prática balanceada, pois imagine fazer musculação somente no braço direito. Em algum tempo você conseguiria algum problema estrutural. Será que o mesmo não acontecerá se você só meditar? Swámi Shvánanda dizia que todo desenvolvimento unilateral é pernicioso.
6 Aug
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Anubhúta vishayásampramôshah smritih
Smriti é literalmente memória, para o autor destes sútras é definido como um período (visha) de percepção (ánubhuta, qualquer percepção dos sentidos) que é carregada ou levada (sampramôsha).
Considerado uma instabilidade pois alimenta os chittavrittis. É através da memória que muitas de nossas funções mentais conseguem funcionar. A memória também é uma das portas possíveis para adentrarmos em nosso inconsciênte, principalmente se utilizada para fazer Yôganidrá.
8 Jul
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shabdajñánánupátivastushúnyôvikalpah
Vikalpa, literalmente é falsa noção, indecisão, dúvida. É definido com a voz (shabda) da ignorância (jñánánipati) destituida de realidade (vastushunya).
Outras traduções possíveis:
Shabda: língua, palavra certa, som.
Jñánánupati: a não produção de conhecimento.
Vikalpa está ligado ao boato que é assimilado como verdade. Considere o peso destas duas informaçòes:
A ciência: O ovo faz mal pois tem colesterol.
O curandeiro: O ovo faz mal pois o espirito que ali habita cobra a reparação pela destruição de sua morada.
A questão aqui não é qual opinião está certa ou errada. O acreditar e retransmitir qualquer uma destas informações sem termos por nós mesmos confirmado a realidade delas gera o vikalpa, a noção errada.
Para um exemplo mais próximo ao dia-a-dia: eu, que sou seu amigo, falo que Fulano é mesquinho. Você que não conhece Fulano, passa a tratá-lo mal e pior, distribui esse vikalpa (noção errada) para outras pessoas. Nesse sentido a tradução de DeRose é fantástica ao traduzir o sutra como: “Conhecimento baseado na imaginação” pois encerra tudo o que dissemos.
Vikalpa está na transmissão ou assimilação de uma informação inverídica e a atribuição de veracidade a tal informação.
8 Jul
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Viparyayô mithyájñánamatadrúpapratishtham
Viparyaya é literalmente inventido, pervertido, contrário. Nos sútras é definido como mithyajñána, conhecimento (jñána) contrário, falso, inverso (mithya). Este conhecimento falso é devido a uma percepção errada, a não atenção a fidelidade (pratishtha) a real forma (rúpa).
Aqui rúpa não está somente ligado a uma forma visual, mas a um contexto muito mais abrangente englobando cada percepção como uma forma. Por exemplo: o animal que tenha vermelho e preto fortes em sua coloração está dizendo aos inimigos que ele é venenoso: não me coma! Quão quanto muitos animais somente tenham as cores mas nenhum veneno. A real forma (rúpa) da cor é só uma percepção visual e não o veneno em si.
Uma mera cobra d’água dentro de uma piscina embutiria medo pois a forma (rúpa) de cobra em nosso imaginário está ligado a perigo. Essa interpretação da forma sem a lealdade (pratishtha) a natureza real (rúpa) da cobra d’água é viparyaya.
É considerado um vritti (movimento, dispersão) pois, voltando ao exemplo da cobra na piscina, este conhecimento incorreto (viparyaya) iria gerar agitação mental, agitação emocional: medo e agitação física: sair correndo. Toda essa atividade é uma forma de vritti, não que seja ruim sair correndo de uma cobra, lembre-se que o próprio Pátañjali diz que alguns dos vrittis são dolorosos e outros não dolorosos.