A raiz do karma (rev:1 27-11-09)

Escrito em novembro 27, 2009 | Categoria: Aprenda Sânscrito, Comentários do Yôga Sútra, Português

ii-12klêshamúlaḥ karmáshayô dṛṣhṭádṛṣhṭajanmavêdaníyaḥ

Sempre que acharmos o termo klêsha nos sútras, ele estará fazendo referência aos obstáculos: incultura, egotismo, exaltação das paixões, aversão injustificada e o apego a vida descritos no sútra II-3. Múlá é raiz, e podemos seguramente entender klêshamúla como a raiz dos obstáculos.

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Karmasháya é o termo cunhado para designar onde o karma está deitado (sháya), onde o karma reside. Neste escopo, o karma emana da raiz dos obstáculos. Ou seja, a existência de ações e suas conseqüências dependem da incultura, do ego, do apego a vida, etc.
dṛṣhṭádṛṣhṭajanmavêdaníya é um termo só. A maior parte das palavras empregadas no sânscrito são compostas. Dois ou mais termos unidos para gerar uma palavra com significado próprio. Como guarda-chuva.

Dṛṣhṭádṛṣhṭajanmavêdaníya: janma é nascimento, vêdaníya é experienciado. Dṛṣhṭádṛṣhṭa é o par visível-invisível, objetivo-subjetivo e faz referência ao momento presente (objetivo) e o momento futuro (subjetivo).

O resultado das ações virá das raízes dos obstáculos e será experienciado tanto no momento presente quanto em um momento futuro.

gotadguafu8Digamos que você tenha acabado de conhecer uma pessoa interessante. Vocês até ensaiam um envolvimento afetivo. Está tudo no começo ainda, ninguém conhece muito bem os detalhes da vida um do outro. Em um determinado momento você pega a sua cara metade abraçando uma outra pessoa de forma muito fraternal. Como você não sabe (incultura) quem é aquela pessoa, sente-se ameaçado.
Este é o começo do karma, através da experiência objetiva, no momento presente de algo em potencial. Algo que será experimentado no futuro. Os resultados desta ação poderão ser desde uma leve discussão até as manchetes policiais.

Mas e se nós eliminássemos o klêshamúla que neste caso foi a incultura, o não saber. Digamos que soubéssemos que nosso affair estava abraçando seu irmão ou irmã. Qual seria nossa reação?

Podemos nos programar para termos a mesma reação independente de quem fosse que estivesse abraçado aquele que estamos aventando a possibilidade de tornar-se a pessoa que iria compartilhar nossa vida.
Quando nos sentimos ameaçados é por que temos medo de perder algo. O medo de perder está ligado a posse que por sua vez é uma função do ego (outro obstáculo: egotismo).

Os obstáculos desencadeiam uma sucessão de ações e reações as quais algumas são possíveis de mudar, outras são como uma flecha de um arqueiro que depois de atirada, não pode mais ser colocada na aljava, contudo, temos poder sobre a maior parte do processo. Da aljava até a pressão no arco. O Yôgin deve adestrar-se para entender este mecanismo e treinar-se no sentido de eliminar os obstáculos (klêsha).

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    One Response to “A raiz do karma (rev:1 27-11-09)”

    1. 1
      Pedro Gabriel Says:

      Olá, sou Pedro Gabriel, sádhaka praticante do Método DeRose na Unidade Santos – SP.

      Tenho acompanhado este blog e compartilhado-o com outros praticantes e amigos e gostaria de fazer algumas considerações com relação a este assunto.

      Considero “ignorância” uma melhor tradução para “avydia” do que “incultura”. A ignorância é a verdade raiz de todo karma e a sua eliminação, por conseqüência, eliminaria todos os outros obstáculos (que são na verdade “sub-obstáculos”).

      O grande impecilho a eliminação do karma, devido à própria ignorância, é a confusão entre meios e fins.

      Alguém que pratica o yôga por várias horas ao dia sente-se um yôgin dedicado ou alguém que sente-se um yôgin dedicado pratica o yôga por várias horas ao dia?

      Caso este yôgin seja alguém mental e emocionamente equilibrado, só se sentirá dedicado após a prática e não o contrário, isto é, a ação precede o sentimento (resultado).

      Antes de eliminarmos uma raiz, devemos “cavar” nossa consciência profundamente, expondo e eliminando todos os ramos que brotam da ignorância, para só então, conseguirmos eliminá-la.

      Eu sugiro que seja feita uma correção nesta ilustração, indicando “avydia” logo abaixo do tronco da árvore, isto é, na base da raiz e não em uma das suas extremidades.

      Podemos conversar e discutir sobre isto, porém, acredito que discutir sútra é quase tão tolo quando discutir o BBB. A compressão está sempre a cargo do conhecedor (estudante/leitor) e não do explanador (professor/leitor) e sabendo que sútra algum foi escrito para ser interpretado objetivamente, deveríamos, simplesmente, marcarmos um encontro com outros praticante e aproveitarmos da boa companhia de nossa egrégora, não?

      Vou estarei em Curitiba no período entre 19 e 22 de maio. Seria um prazer poder praticar com vocês.

      Meu e-mail: pedrofilosofia@gmail.com

      Um abraço.


      Entramos em uma questão mais de linguistica do que de entendimento. Eu optei por usar incultura, pois considerei que ignorância é só uma questão de saber ou não saber. É como se eu dissesse: resolver o karma é 1 2 3 4, entendeu? Entendi… Pronto, a pessoa sabe, mas nada mudou. Contudo, a mudança estará quando este conhecimento transforma-se em padrão de comportamento fazendo com que o indivíduo tome novas decisões. Neste sendido gosto da frase de Millor Fernandes: Cultura é aquilo que resta depois de termos esquecido tudo o que aprendemos…

      Por isso considerei que avidya neste contexto casava melhor com incultura do que com ignorância, pois não era uma questão só de saber ou ignorar. A não ser que consideremos que ignorar esteja em um sentido mais amplo, não contemplando só o estudei, entendi, mas não apliquei. Uma questão de nomeclatura como disse antes.

      Minha intenção não é fazer um trabalho filosófico, já que não tenho gabarito para tal. É simplesmente falar em um linguagem que o leigo possa entender melhor (e estou longe disso). Pois se falarmos a nossa lingua chegaremos as mentes das pessoas e isso não resolverá o avídya. Agora se falarmos a lingua de todos, chegaremos aos seus corações e provocaremos mudanças, se me permite perfrasear.

      A primeira acepção do termo vidya é conhecimento. Mas também pode ser ciência, aprendizado, acadêmia/acadêmico, filosofia, em algumas escolas é considerado como qualquer tipo de conhecimento seja verdadeiro ou falso. Mas também pode ser mágica, encantamento, ou pílula mágica.

      Querendo me encontrar em sua passada por curitiba pode me encontrar na escola do Alto da XV :)

      Abraços

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