Comentário do Yôga Sútra – I-17 – O primeiro samádhi

Escrito em maio 26, 2008 | Categoria: Comentários do Yôga Sútra

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Vitarkavicháránandásmitárúpánugamátsamprajñátah

Esta indiferença com os guna são retratados como o primeiro estágio de samádhi, denominado saṃprajñáta. Em sútra posteriores são descritos outros níveis deste estado de consciência, também chamado de sábija samádhi.

Aqui há uma das várias de divergências entre os tradutores. Pois o sútra diz: vitarka vicháránanda… O termo antes do ánanda por alguns autores é dito como vichára e por outros como vichar.

O prefixo ‘vi’ designa mover-se em várias direções ou até mesmo mover-se para todas as direções ao mesmo tempo.

Vichára é quando alguém faz uma investigação minuciosa sobre algum assunto; um modo específico de agir; ponderar sobre; é quando se está apto a discernir ou julgar algo. Vem da raiz chint que é pensar, vichant é pensar em todas as direções, pensar sobre todos os aspectos. Logo, vichára a forma declinada está se referindo a perceber ou pensar sobre algo olhando sobre todos os ângulos.

Vichar sem ‘a’ longo antes do ‘r’ é mover-se em várias direções, expandir, atravessar, dissolução, atingir no sentido de chegar a algum lugar. Vem da raiz char que significa mover, junto como prefixo vi dá o sentido primário de mover-se em várias direções ou até mesmo mover-se para todas as direções (expandir).

No original em dêvanágari temos a utilização do ‘a’ longo antes do rêpa (‘r’) o que indica que o termo vem da raiz chint (pensar) e não de char (mover). O que mostra que nesse estado de consciência nós conseguiremos perceber e observar as quatro estruturas elencadas pelo sútra de uma forma mais ampla e abrangente, a saber:

Ánanda: literalmente é a felicidade ou prazer advindo do sensorial, mas dentro das escolas de pensamento relacionadas ao yôga designa o estado de felicidade inefável no qual não há um por que de estar feliz, simplesmente o é. Aqui cabe um adendo, pois apesar da linhagem de Pátañjali ser repressora e indique que devemos nos desfazer dos prazeres eles estão em busca justamente do prazer. Não os do cotidiano e comum a todo ser humano, mas um tipo de prazer mais elevado e consideram que o caminho para chegar a este prazer mais elevado seja renunciar os prazeres do cotidiano.

Asmita: ego. Vem da conjugação do verbo ser na primeira pessoa do singular: eu sou (asmi).

Nesta fase o yôgin perceberá que aquilo que ele considera como ele, como o seu eu é tão somente uma estrutura de sua existência assim como sua mente, suas emoções, seu corpo, etc.

O samsárin (não yôgin) considera seu ego como sendo ele mesmo, muitos confundem seu pensamento como sua própria existência usando o paradigma de Decarte penso logo existo.

Na realidade o filósofo não fez um pensamento tão simplista assim. Os argumentos dele são muito bons e recomendo a sua análise. O problema é que fora extirpada toda a argumentação reduzindo páginas de pensamento em uma única frase, destituindo-a de seu real significado.

Voltando ao assunto: o ego. O ser humano comum, sente que por detrás de tudo o que ele consegue perceber há um sentido de existência e individualidade que ele considera como o “eu sou”. Como falado anteriormente, no estado de consciência aqui descrito o yôgin tomará ciência de que este “eu sou” é tão somente mais uma estrutura como as outras que fazem parte de sua existência.

Rúpa: a real forma. Este termo designa muito mais do que somente uma forma tridimensional. É usado dentro da filosofia para designar qualquer forma, seja ela visual, tátil, auditiva, etc. Forma, aqui, designa como nós percebemos determinado objeto através de nossos sentidos.

Neste estado de consciência conseguiremos perceber a real forma por detrás de um cheiro, de uma percepção visual, da sensação tátil, etc.

anugama: Esta é uma palavra complexa de traduzir. Anu é um prefixo que indica: aquilo veio depois. Gama é caminho, curso, ir por algum lugar, marcha; seu sentido pode ser estendido para caminho como vida, por exemplo: “em meu caminho terei muitas alegrias e tristezas”. Os dicionários traduzem anugama como aquilo que vem depois da vida e da morte.

Como o sentido real desse termo foge ao meu conhecimento deixarei a cargo do leitor tirar suas próprias conclusões.

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