No I-23 é apresentado mais uma forma de chegar ao samádhi, através de Íshwara pranidhána.

Pranidhána literalmente é manter-se fixo em algum lugar, também pode designar a contemplação ou processo mental abstrato. Felizmente o autor define o termo no I-24.

Íshwara literalmente é aquele que é capaz. Foi definido no Yôga sútra como uma parte peculiar do púrusha (púrushavishêsha) que não é o púrusha puro (mrishta), no sentido de que não é a própria mônada, mas sim uma parte dela. Reside em um lugar (shaya) nem além nem atrás (apará) das conseqüências (vipáka) das ações (karma) e das aflições (klêsha).

Ishwára pranidhána também é a última proscrição ética, os nyamas que estão escritos no segundo livro do Yôga sútra.

Dentro do código de ética do yôga clássico o niyama íshwára praṇidháná pode ser interpretado de diversas formas. Estas formas de entendimento estão mais ligadas a bagagem cultural e ao sistema de crenças e valores do praticante do que realmente aquilo que Pátañjali quis dizer.

Para entendermos preciso que você se utilize do seu poder mental de criar conceitos abstratos assim como se faz necessário você não tentar encaixar estes conceitos em qualquer outro tipo de sistema de crença ou valores.

É comum as pessoas quererem traduzir íshwara de forma simplória: “entregar a deus”.

Vamos aos pontos:

  • Praṇidhana não é “entregar”, é manter-se fixo em algo ou faz referência a um processo mental abstrato.
  • Dizer que íshwara é deus não combina. Segundo as crenças cristãs Deus criou todo o universo, mas em parte alguma do yôga sútra faz-se a afirmação que íshwara criou o universo. Isso é só um exemplo de incoerência filosófica a qual os ocidentais gostam de cair.
  • Íshwara é uma parte do púrusha que não está nem além nem atrás das conseqüências do karma e do klêsha.

Então o que é Íshwara pranidhana?

Karma é o conceito de ação e reação. Não tem nada haver com destino. É simplesmente a constatação de que tudo o que você fizer gera conseqüências. Ao movimentar o seu braço você desloca o ar e este irá mover a poeira que está sobre a mesa que por sua vez cairá dentro do copo do suco que você tomará, a poeira será digerida e sabe-se lá o que mais irá acontecer pelo simples motivo de você ter movimentado o braço.

Klêsha literalmente designa aflição, vem da raiz klis que é dor, sofrimento. Ánanda é o estado de felicidade inefável. É um estado de consciência ao qual se vivencia a felicidade por ela mesma, sem nenhum motivo.

Klêsha é o estado oposto ao de ánanda e para chegar a este estado de felicidade inefável precisamos passar pelas cadeias do klêsha. É como a citação que diz: “a aquele que não só venceu as cadeias do mal, mas também as do bem: a este eu chamo de sábio”. O yôga vai levar o praticante a coisas boas, mas também o levará a enfrentar tudo aquilo pelo qual tentamos fugir: medos, anseios, coisas mal resolvidas, deficiências, etc. Tudo isso será um degrau na evolução do praticante e será necessário passar por estes klêsha para seguirmos em frente.

Agora preciso que você abstraia o seu pensamento e tente imaginar um estado de existência ao qual você continua emanando karma e klêsha, mas não está mais preso a conseqüência deles.

Vamos tentar colocar isso em termos do cotidiano para dar um exemplo de como fazer isso acontecer com pequenas coisas: você está prestes a ganhar uma promoção. Um não-yôgin ficará ansioso[1] (klêsha), tentará fazer alguma coisa a mais para impressionar, mas pela ansiedade faz coisas erradas e mal feitas[2] (karma).

Um yôgin continuará fazendo o que ele sempre faz, independente da promoção. Suas ações estão fora da expectativa de seus resultados. Junto a isso não se gera expectativas, ilusões, desalentos. Muito menos exaltação ao ganhar a promoção. O que será reforçado é a confiança e o poder que o yôgin tem.

Redefinindo

Depois de saber tudo isso, vamos redefinir:

Íshwara praṇidháná pode designar tanto a tentativa (manter-se fixo) de vibrar na mesma tônica deste estado de consciência ao qual a conseqüência do karma e do klêsha não entra em questão, assim como pode designar o processo abstrato em si.

Íshwara praṇidháná está ligado a agir e não em reagir. Preciso da promoção, pois minha mulher ficou grávida e por isso preciso ganhar mais dinheiro. Isso é reagir. Agir seria fazer tudo o que lhe foi designado a fazer de forma perfeita e por acaso seus superiores quiseram lhe promover por verem em você uma atitude empreendedora e positiva. É acertar o alvo com a flecha de forma precisa por estar comprometido com todas as ações que envolvem atirar uma flecha menos uma: a intenção de acertar o alvo. É o comprometimento em fazer a ação de forma perfeita, independente do resultado dela.


[1] A conseqüência do medo de perder a promoção é a ansiedade.

[2] A conseqüência do klêsha gera ações (karma) atabalhoadas e os resultados delas não serão bons.

Veja Também

  • Comentários dos Sútras I-14 - Prática sem interrupção
  • Comentários dos Sútras I-13 - Abhyása
  • Comentários dos Sútras I-11 - Smriti
  • Comentários dos Sútras I-4