Escrito em outubro 5, 2008 | Categoria: Português, Principal
Para um Swástha, isso é mais do que óbvio. É chover no molhado falar sobre isso, contudo percebi que muitas pessoas que ainda não praticam ou o fazem a pouco tempo, não faz a menor idéia do que é ásana, acham eles: “é a ginástica do yôga”, ledo engano. Então vou pedir licença aos meus leitores para exercer a máxima do magistério: “falar o óbvio e ainda ter que repetir três vezes”.
Mas o texto não é para você swásthya yôgin que já faz isso todos os dias, é para aqueles que ainda estão começando ou estão pesquisando como é que se pratica yôga. Não é do meu feitio fazer textos grandes, mas este assunto é grande, não há como encurtar. Então vamos lá.

photo credit: natalia.sanmartin em yogaantigo.wordpress.com
Se tivéssemos a mesma foto da Instr. Natália da Argentina em um blog de ginástica olímpica por exemplo, talvez em um site de uma academia, ou quem sabe em uma escola de kung-fu…
Em todos essas modalidades, podemos utilizar a mesma posição, mas então o que é que vai diferir alongamento de Yôga, Yôga de aquecimendo de uma arte marcial, uma arte marcial de uma alongamento de academia?
Quando se faz uma alongamento só queremos esticar os músculos para que eles “acordem” e assim não machuquemos nosso corpo. Ou talvez queiramos incrementar a flexibilidade…
No Yôga todos esses efeitos são secundários, meros acidentes de percurso já que o objetivo é gerar consciência. Primeiro com aquilo que é mais fácil perceber, o próprio corpo, mas depois iremos usar o mesmo know-how que usamos para entender músculos, nervos, articulações para administrar sensações, depois emoções, padrões comportamentais, gerar estados de consciência, e outros objetivos mais profundos.
Para ser curto e grosso: “vai lá e fica”. Você faz o ásana e não fica desfazendo, ou se mexendo, arrumando o cabelo, se olhando no espelho. Como diria nossa avózinha: “fica quieto menino!”.
A estabilidade corporal irá influenciar na sua estabilidade interna. Não acredita? Tente dormir se mexendo a todo momento. Se sua namorada(o) estiver do lado vai lhe dar um safanão para você ficar quieto, ou seja, se movimentar quebra o estado de consciência, impede que você consiga ir cada vez mais fundo.
Este princípio está de acordo com o que Pátañjali disse: sthirasukhásanam. Por isso mesmo é inconcebível em uma aula de yôga haver repetição. Repetição é ginástica e não yôga.
Conforto é o ponto chave do desenvolvimento. Esta característica nos liga as raízes tântricas do yôga mais antigo. É através do prazer que você irá se desenvolver, mas aqui cabe algumas explicações.
photo credit: Svadilfari
Conforto não é sinônimo de não sentir nada. Imagine a cena: você em casa assistindo um filme debaixo das cobertas com o cobertor de orelha ao lado e uma pipoca esperta. Está super confortável não é? E você está sentindo um monte de coisas: o gosto da pipoca, o quentinho da cama, os pés do cobertor de orelha enroscados nos seus, o estímulo visual, quem sabe uma mão boba… er.. enfim, você entendeu o ponto.
Outro detalhe é que você não pode usar o conforto como muleta para dizer: “ai mais tá doendo, ai isso, ai aquilo”. Deixe de ser florzinha de estufa, pare de reclamar e administre as sensações (explico como fazer isso mais abaixo).
Uma informação importante é que existe uma diferença entre dor e sensação de trabalho intenso. Aqueles que estão mais sedentários vão confundir a sensação de trabalho intenso como dor. As sensações nas extremidades podem ser melhor observadas por mais tempo, já qualquer tipo de dor no tronco ou na cabeça é sinal para desfazer o ásana imediatamente.
A estética do ásana é o que dará a força dele. São os detalhes de cada técnica. A posição certa das mãos, o ângulo da perna, a distância entre os pés e uma miríada de outras coisas que só se aprende pela utilização.
A estética do ásana não é “só para bonito”. O detalhe deixa a técnica muito mais difícil e gera os resultados esperados. O seu instrutor poderá chamar a estética de “detalhe técnico”.
Como é o caso do Bhujángasana (foto ao lado) onde um dos detalhes técnicos (estética) é manter os calcanhares unidos fazendo uma leve pressão entre uma perna e outra. Se fosse uma técnica de ginástica esse pormenor seria dispensável, mas para o yôga precisamos desta leve pressão para gerar o estímulo no plexo coccígeo.
Por isso, redobre a atenção as instruções de seu professor. Não vá perder os detalhes que irão deixar a sua prática em alta voltagem.
O objetivo da respiração aqui é mudar o estado de consciência, mas para os iniciantes a algo mais urgente a ser entendido: é preciso que você respire tão bem que forneça um superávit de oxigênio para o seu corpo. Você tem que respirar em uma quantidade ideal para que não haja necessidade do seu coração bater mais forte e de sua respiração acelerar.
Pense bem, sua respiração e ritmo cardíaco só se aceleram pois seu corpo constata que está faltando nutrientes nas células e manda o estímulo para seu coração e pulmões trabalharem mais. Se durante a prática de yôga você ficar ofegante ou seu coração acelerar é sinal que você está respirando pouco ou errado.
Seu ritmo cardiaco e respiratório devem permanecer relativamente estáveis durante toda a prática independente da força que você fizer. Haverão mudanças, mas não serão acentuadas.
Sua respiração deve acontecer pelo comando da sua vontade e não por um mero reflexo do seu cérebro. Na quarta parte da prática você aprenderá as técnicas respiratórias. Com o tempo isso será absorvido como seu modo operante e mesmo inconscientemente você respirará mais e melhor. Contudo, no ásana a respiração sempre será consciênte, silenciosa e exclusivamente nasal.
Você entendeu a parte do exclusivamente nasal? Não é para soltar o ar pela boca. Eu falo isso toda aula e sempre tem alguém que por ato reflexo inspira pelo nariz e solta pela boca. Vou repetir mais uma vez: inspiração e expiração é somente pelas narinas. “Ah! Mas na aula de ping-pong se faz diferente” Sim, mas você está fazendo Yôga ou ping-pong?
Quando você deixa sua respiração consciente é o primeiro passo para você administrar o seu emocional e outros padrões comportamentais, o próximo são os ritmos. Da próxima vez que for comprar algo, deixe a respiração consciênte, você assim deixará de comprar as coisas por impulso.
A profundidade da respiração está ligada ao tempo de que você demora para respirar e não a quantidade de ar que vai para os seus pulmões. Mesmo assim, aqui no ásana é importante que você se utilize da respiração abdominal ou completa, depende da posição e do adiantamento do aluno. É mais um detalhe que será aprendido com um instrutor diretamente já que não temos como fazer um lista com todas as possibilidades.
Através da respiração profunda podemos mudar o estado de consciência. Para deixar sua respiração mais profunda neste exato instante basta respirar de forma exclusivamente abdominal (sem mover as costelas) e demorar bastante, tanto para inspirar quanto para soltar o ar. Faça isso por um bom tempo, uma só não vai refrescar a moringa.
Quando você ficou de cabeça quente o que foi que seus amigos lhe disseram? Respira fundo… Para que? para mudar o estado de consciência, do emocional para algo mais racional.
Através do ritmo respiratório podemos dominar nossas emoções e ações. Este quesito unido a localização da consciência e mentalização permitirão com que você administre aquelas sensações que lhe fazem pensar: “ai isso, ai aquilo”, assim você altera o padrão de comportamento perante uma sensação e isso será usado da mesma forma para com uma emoção em outro momento fora da prática.
Quando fizer um ásana que requer tração muscular, você será confrontado rapidamente com sensações que irão influenciar na sua tomada de decisão, exatamente como suas emoções fazem no seu cotidiano. No começo você irá desistir e desfazer, mas depois irá usar aquilo como estímulo para fortalecer algo muito mais importante que seus músculos: sua vontade. Com musculos fortes você poderá levantar peso, com a vontade disciplinada você poderá fazer qualquer coisa, inclusive levantar peso.
No seu cotidiano você não tem como “desfazer” aquilo que lhe gerou a emoção, você só poderá administrá-la e as mesmas técnicas que usa para administrar as sensações em seu ásana poderão ser usadas para administrar o seu emocional no dia-a-dia.
Quando chegar no título sobre mentalização você vai entender por que é que não se deve ficar reclamando mentalmente.
No começo use um ritmo simples, como por exemplo inspirar em um determinado tempo e depois soltar o ar pelo mesmo tempo da inspiração. Com mais tempo de prática você aprenderá outros ritmos e a influência deles em estados internos. Fazer ritmo 1-1 já é mais que suficiente para um bom tempo de treinamento.
Esta é a parte mais importante do ásana, sem fazer esta parte você só está fazendo a “casquinha” do ásana. É esta característica que irá trasformar uma singela técnica corporal em um Yôga poderoso e transformador. É aqui que reside a grande diferença, é este quesito ao qual você deve se adestrar mais fortemente.
A regra de execução diz: “concentre-se na região que estiver chamando a sua atenção”. Ou seja, concentre-se na região e não na sensação gerada. A todo o momento sua mente será puxada para a sensação, seu trabalho no início será focar-se em musculos, articulações, orgãos internos e tudo aquilo que puder sentir. Mais tarde usará como foco as sensações, mas primeiro precisa aprender a administrá-las pois senão elas só irão atrapalhar a sua vivência e influênciar na sua tomada de decisão.
Concentre-se e tente sentir com a maior riqueza de detalhes possível aquilo que estiver sendo estimulado. Sinta musculos, tendões, ossos, articulações, coluna, vertebras, coração, a pressão que os pulmões fazem, etc.
Feche os olhos e tente formar uma imagem mental de como é seu corpo por dentro. Como se fosse uma aula de anatomia, só que sem precisar decorar nomes. Basta sentir e saber que está lá.
Se você fechar os olhos agora (não irá mais conseguir ler hahaha) e eu pedir para você sentir suas mãos, tenho certeza que conseguirá saber exatamente onde está cada dedo, em que ângulo sua mão está, o que está segurando e vários outros detalhes. 
photo credit: williamhartz
O que queremos com a localização da consciência é expandir nossa consciência. Onde você prestar atenção seu corpo enviará mais sangue para aquela região e tecidos mais irrigados se desenvolvem melhor. Não tenho dados científicos sobre a próxima informação, mas acredita-se que com o treinamento constante de manter o foco em um determinado ponto do corpo estimúle-o a criar mais terminações nervosas, permitindo com que você perceba mais aquela região.
Sobre a localização de consciência nós aplicamos mentalizações.
Sem bháva ásana não é ásana, sem bháva yôga não é yôga. Bháva é o sentimento que confere poder a tudo aquilo que fazemos.
Não há tradução exata do termo, mas designa sentimento, vontade, profundo querer, entre outras coisas. Estudar para aprender é um exemplo de bháva comparado ao estudar somente para passar na prova. Trabalhar para construir seus sonhos é trabalhar com bháva, trabalhar só para ganhar dinheiro não é usar o bháva para trabalhar.
O bháva dentro do ásana é aquele profundo querer de que aquilo que esteja se concentrando, mentalizando esteja acontecendo no exato instante. É aquela vontade inabalável de melhorar a cada instante, é o não largar o osso. É a força motriz por detrás de todas as nossas ações.
A posição corporal será suporte para sua respiração que por sua vez será suporte para sua atitude interior. Sua respiração conciênte, profunda e ritmada deixará sua concentração mais afiada. Sua concentração permitirá sua mentalização e sua mentalização permitirá a manifestação da sua vontade. Capice?
Com estar informações unidas as regras gerais de execução e ao balanceamento dos ásanas, você estará apto a fazer qualquer ásana, inclusive sem a presença de um instrutor. Você terá ganho auto-suficiência, ou em bom sânscrito: SwáSthya!
Clique na imagem abaixo para ir a página com um treinamento que contém uma das oito partes da prática completa de SwáSthya.
Todos os conceitos aqui mostrados são baseados na obra de DeRose e o que aprendi com minha professora Sara Cadore e com meu amigo Prof. Rogério Brant.
» Arquivado em Português, Principal
maio 22nd, 2009 at 10:19
Em uma aula de yoga com duração de 1 hora, existe uma sequencia de movimentos que seja obrigatorio, ou você pode executar os movimentos aleatorios comforme a sua vontade?
O que você procura chama-se balanceamento de ásanas que diz como selecionar as técnicas. Dê uma olhada no artigo: http://swasthya.marcocarvalho.com/balanceamento-dos-asanas/ e depois assista a aula do DeRose em http://www.uni-yoga.org.br/web_classes.php?pagina=4&categoria=1 na qual ele fala sobre balanceamento.
maio 21st, 2009 at 10:51
Ola ! Gostei mto ds suas orientaçoes , meus parabens .
Tenho uma duvida.Existe uma sequencia padrão de movimentos a serem executados em uma aula de Yoga? No sentido de compensamento, sobrecarga…no sentido físico.
Não entendi sua pergunta.. Como assim?
Abraços
maio 3rd, 2009 at 20:02
[...] aleatória. Utilizando diversos ásanas que atuem na região desejada, e executando segundo as características necessárias para que possamos chamar aquilo de ásana. Além disso utilizando as regras gerais de execução. [...]
abril 24th, 2009 at 19:41
Oi Marco, fiquei muito feliz ao ler este texto, pois veio a calhar…
sou iniciante em yoga e estava mesmo precisando de uma orientação mais simplificada dos beneficios e objetivos do ásana.
obrigada!
Fico feliz em ajudar.
Abraços
janeiro 8th, 2009 at 7:31
Oi Marco , gostaria de parabenizá-lo pelo site, muito instrutivivo. Tenho uma dúvida sobre o tempo de permanência de cada ásana. Se puder me ajudar eu agredeço, um abaraço !!!
Se você está treinando sem um instrutor, pode usar uma das seguintes alternativas:
- (iniciantes) Enquanto puder reter a respiração*, permaneça. Precisando respirar, desfaça.
* essa retenção pode ser com ar ou sem ar, dependendo do ásana. (movimentos para cima são com ar, para baixo sem ar)
- (veteranos) permaneça no ásana, respirado livremente, o tempo que o bom senso e o conforto permitirem. Antes que cesse o conforto, desfaça a posição.
Existe a alternativa de fazer um segundo por dia, o que eu acho a melhor de todas e que treina muito mais que seu corpo: sua disciplina de fazer todo dia e não fazer as coisas atropeladas.
Comece permanecendo apensa um segundo no primeiro dia, dois segundos no segundo dia, três no terceiro, quatro no quarto e assim sucessivamente. Dessa forma, quando completar um ano você estará permanecendo cerca de 365 segundos.
Respondi sua dúvida, se não é só deixar outro comentário. Abraços
novembro 19th, 2008 at 7:43
[...] Para entender melhor como funciona o balanceamento você pode assistir o vídeo-aula do DeRose no site da Uni-Yôga entitulado Balanceamento dos Ásanas, ele tem uma hora de duração e explica inclusive dando exemplos. Vale a pena assistir para fixar o conceito de balanceamento. Outra pedida é você entender como fazer os ásanas. [...]
outubro 7th, 2008 at 11:50
Muito legal este texto Marco… tinha deixado na pasta “não lidos” até hoje pra poder ler com calma. Deu uma boa resumida nas regras gerais.
Aproveito que o tópico citou algumas coisas para perguntar algo que me intriga há algum tempo. Vou perguntar pra minha instrutora também mas queria saber sua opinião:
Eu sei que yôga é yôga e ping-pong é ping-pong. rs.
Mas partindo da teoria que podemos aplicar muitas coisas do Yôga no nosso dia a dia, tenho tentado aplicar técnicas respiratórias durante as aulas de spinning, ou quando saio pra pedalar na rua.
Tenho tentado a princípio manter a respiração extritamente nasal, pra depois tentar ritmar, ou ainda manter respiração profunda. Mas tá bem difícil…
Alguma dica em relação a isso?
Abraços!
Deixe a inspiração mais demorada do que a expiraçào
abraços
outubro 6th, 2008 at 9:32
Fala Marco!
Na última sexta-feira, formei-me no Curso Seqüencial de Yôga pela Universidade Estadual de Ponta Grossa.
Esta é a primeira turma do primeiro curso do gênero no mundo e um fato que pode colaborar muito na regulamentação da profissão.
Leia mais sobre isso:
http://eupraticoyoga.com/2008/10/06/formatura-da-primeira-turma-do-curso-superior-de-yoga-na-uepg/
Se puder divulgar isso em seu blog, será muito importante…
Abraços!
outubro 5th, 2008 at 9:51
Ontem mesmo fiz (mais) um curso com o Rogério sobre este assunto…
Agradeço os apontamentos…
outubro 5th, 2008 at 3:25
[...] Procure no Google: Ásana, veja as imagens que aparecem, tente executar qualquer uma daquelas posições seguindo estas instruções. [...]