Escrito em fevereiro 5, 2009 | Categoria: Português, Principal
No princípio dos tempos os sapatos foram criados sozinhos, eles não tinham um par. Existiu há pouco tempo atrás um sapato que se incomodou com o fato de ser sozinho. Ele não sabia direito ainda o que era, mas no seu íntimo algo faltava. Sentia-se infeliz daquela forma, muito embora não pudesse explicar exatamente por que.
Andou muito até quase ter que trocar a sua sola e nunca encontrava nada que lhe tirasse aquele pesar. Um dia cansado de tanto procurar, sentou-se ao lado de um andarilho que aparentava muitos anos de idade pela barba e cabelos brancos.
Não demorou muito para os dois começarem a conversar e o sapato lhe confidenciar seu desânimo e infelicidade.
- O que procuras? – perguntou o velho.
- Não sei bem ao certo…
- Hmmm, será que você poderia me ajudar? Perdi meu cajado naqueles arbustos e minhas pernas cansadas precisam da ajuda dele para continuar andando. Pode achá-lo para mim?
O sapato não podia negar a um ancião uma tarefa tão simples e se pôs a procurar em meio aos arbustos. Procurou por muito tempo e não conseguia encontrar nada, nem sequer um graveto. Voltou ao senhor de barbas brancas confessando sua inaptidão em terminar a tarefa. O senhor lhe disse:
- Se é difícil achar algo simples como um cajado, imagine tentar achar algo que você nem sabe o que é.
- Sua infelicidade estará em todos os lugares, pois você a carrega com você por onde quer que ande. Se não descobrir o que realmente quer será difícil até mesmo se encontrar.
O sapato emudeceu e então o velho sábio lhe instruiu que quando soubesse o que desejava o sapato deveria procurar uma força da natureza que habitava o cume de uma montanha gelada. Aquela força criadora podia manifestar qualquer coisa no universo, quando alguém se aproximava o suficiente com um intuito muito bem definido, aquela força agia criando o que houvesse na mente e no coração do aventureiro que conseguisse chegar ali. O sábio o advertiu a só subir com certezas e nunca com dúvidas, pois se a dúvida morasse em seu coração somente mais dúvidas seriam criadas.
Por mais algum tempo o sapato vagou tentando entender o que lhe faltava, o que realmente lhe incomodava. Observando a natureza percebeu que os animais tinham seus pares. Até mesmo os tigres, quando encontravam seu par brincavam como gatinhos ronronante. Ele já havia conhecido outros sapatos, mas nunca havia encontrado o seu par. Em um lampejo de certeza que nunca houvera lhe ocorrido estava claro como água que ele queria encontrar o seu par.
Rumou para a montanha gelada, como havia dito o sábio. Subiu sem se importar com o vento e a poeira. Por vários dias subia incansavelmente. E a medida que subia o terreno tornava-se mais íngreme. Ele era um sapato simples, não era adaptado para andar no gelo ou para escalar encostas, mas sua coragem o fez subir. Sentiu muito frio ao ter que andar sobre o gelo, ele afundava e quase era afogado por aquele mar branco.
Em dado momento pisou em falso e rolou encosta abaixo, como não era preparado para o gelo continuou escorregando e descendo. O que demorara dias para subir, desceu em poucos minutos. Pela violência da sua descida só foi parar depois que o gelo acabara e ele encontrou um tronco de árvore que segurou sua queda. Muito machucado, sujo e desanimado não tinha forças para subir.
Um viajante que por ali passava e viu o acidente correu para verificar se o sapato estava bem e constatou que a maior ferida tinha sido provocada no ego do pequeno sapato. Decidiu ajudá-lo e disse:
- Se você puder proteger meu pé do frio eu posso lhe ajudar a subir a montanha.
Confiante, o sapato fez tudo o que podia para proteger o pé de seu novo amigo. Juntos chegaram ao topo da montanha e encontraram a força que o sábio havia comentado. Era um tipo de força que se comunicava de uma forma peculiar, sem palavras. Você sentia.
Em uma fração de segundos toda a realidade havia mudado, como se o tempo não fosse uma sucessão de instantes, mas uma massa que pode ser moldada e assim o foi. Os tempos imemoriais aos quais tudo fora criado estavam ali e o instante que os sapatos foram criados fora mudado para que eles não fossem mais sozinhos, mas fossem criados em pares que sempre iriam andar juntos, quando um dos sapatos estragasse ambos seriam descartados. Quando um sapato fosse moldado, o seu par iria ser criado junto. E assim foi, o sapato agora não era mais sozinho e nunca o foi pela percepção de tempo que temos.
Mas mesmo assim, aquele sapato que agora não era mais sozinho sentia-se infeliz da mesma forma. Não conseguia compreender, já que todos eram felizes com seus pares, mas ele não. Ainda faltava algo.
Foi procurar o sábio que havia lhe ajudado e ao encontrar relatou o que havia acontecido: como o tempo havia se distorcido, como todo o universo havia se moldado a sua expectativa e que mesmo assim ele não se sentia feliz.
Então o sábio disse:
- Quando você estava subindo a montanha, estava infeliz?
- Não…
- Quando você caiu, estava infeliz?
- Não…
- Quando você conseguiu realizar sua missão, como se sentiu?
- Feliz, realizado… – o sapato respondeu ainda sem entender onde aquilo iria chegar.
- Feliz? Mas você ainda não tinha o seu par, por que estava feliz?
Neste momento o sapato entendeu que não era o par que fez a diferença, era o horizonte. Por isso as pessoas dizem que se sentem realizadas, pois elas realmente realizaram algo. Foi dentro do pé do viajante que ele sentiu-se útil e pode realizar o que desejava.
Munido disso, chamou o viajante e juntos subiram novamente a montanha e chegando lá usaram a força criadora para moldar o tempo novamente e desta vez, os sapatos além de terem pares, sempre teriam pés para levá-los aonde quer que fosse para ajudar a todos a realizarem o seu caminho. Ao mudar o tempo novamente o sapato se sentia completo agora, feliz em caminhar por todos os lugares…
Uma fábula da Andréia.
» Arquivado em Português, Principal
fevereiro 23rd, 2009 at 15:47
[...] * você conhece a fábula do sapato? [...]
fevereiro 16th, 2009 at 23:32
Ficou linda mesmo essa fábula! Parabéns!! =D
fevereiro 10th, 2009 at 22:27
fevereiro 6th, 2009 at 18:37
Maravilha, maravilha… uma fábula é um mega-suco concentrado de conhecimento, e bem assim, simples, leve e duradoura… como todos os bons sapatos!!!
Marco, manda uma abraço para a Andréia, acho que ela tem contato com os arquétipos de Esopo e dos irmãos Grimm
Abraços
Rômulo Justa