Escrito em junho 27, 2007 | Categoria: Comentários do Yôga Sútra, Português
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I-2 Yôgashchittavrittinirôdhah
Nesta pequenina frase, está encerrado a demonstração que o desenvolvimento dentro do Yôga deve ser multilatera, no sentido de que não podemos só fazer meditação, ou só fazer ásanas (técnicas corporais), ou só isso, ou só aquilo. Temos que nos desenvolver como um todo e o Yôga supre essa necessidade. Swámi Shivánanda, mestre hindu já dizia em sua autobiografia: “Todo o desenvolvimento unilateral é pernicioso”.
Imagine alguém que faz musculação somente no braço direito (como no filme A Dama da Água), este indivíduo estaria plantando a semente de algum problema futuro, pois um braço mais pesado do que o outro poderia gerar algo na coluna, entre outras coisas. Isso acontece na mesma medida naquela pessoa que somente quer exercitar o cérebro e o corpo fica a ver navios. Uma pessoa assim não será saudável para o resto da vida a não ser que troque hábitos. O mesmo acontece com o Yôga, só meditar, ou só fazer respiratórios, a longo prazo gera algum tipo de desordem. Qual? Prefiro não descobrir!
Voltando ao Yôga Sútra. No sútra I-2, podemos concluir que o yôga tem um desenvolvimento multilateral. Neste sútra Pátañjáli define o que é Yôga. Então vamos ver:
Yôga: da raiz yuj, juntar, unir, manter ligado. União.
chitta: (algo que foi) percebido, mirar, desejar por, (algo que) apareceu, visível, estar presente, observação, pensamento, imaginação, intenção, foco, desejo, o coração, mente, memória, inteligência, razão.
vritti: rolar, rolar a baixo, modo de vida, conduta, curso de uma ação, comportamento, prática comum, regra, modo de ser, natureza, atividade, função, estado da mente.
nirôdha: confinamento, trancar em algum lugar, estar preso, supressão, controle, repressão, destruição.
Veja algumas traduções:
DeRose: Yôga é a supressão da instabilidade da consciência.
Vivêkánanda: Yôga é impedir que a matéria mental tome formas variadas.
Eliade: Yôga é a supressão dos estados de consciência.
Padmánanda: Yôga é o controle das idéias do espírito.
Essa aparente discrepância é causada pela riqueza da lingua sânscrita e é isso que vamos analisar agora para que possamos entender com uma maior amplitude o significado.
É o complexo mente-personalidade. Quando dizemos chitta estamos nos referindo ao ahamkara (ego), buddhi (inteligência supra-intelectual), manas (mente). Se olhar nas traduções que disponibilizo, há uma série de palavras para definir chitta. Quando os autores citados elegera uma palavra para definir chitta, eles automaticamente tiveram que excluir todos os outros sentidos, já que em nossas linguas modernas não temos um termo que defina exatamente chitta. Não foi por mal, cada qual escolheu o termo que achou melhor se encaixar.
São movimentos, instabilidades para um sádhaka (praticante de yôga) mas para um não iniciado é simplesmente o seu modo de vida. Como pode constatar, vritti é movimento, modo de ser, curso de uma ação. O conceito de instabilidade se dá ao yôgin que está fazendo com que estes movimentos entrem em um determinado padrão e quando isso não acontece chama-se de instabilidade. É como se o yôgin quisesse andar em uma linha reta e a cada passo fora dessa linha fosse um vritti e uma pessoa não-yôgin trilhasse outro caminho aos quais onde seu pé está não é importante.
Assim o não-yôgin dá passos em uma direção e o yôgin passos em outra, ambos saem de seus caminhos eventualmente, mas só o yôgin vai classificar aquilo como instabilidade ou dispersão.
Os chittavritti são todos os movimentos causados pelas estruturas que compõem chitta: o modo de ser da mente, movimentos do ego, a atividade do intelecto, etc. Para um samsárin (não-yôgin) esses movimentos, atividades e modos de ser, são percebidos por ele como sua própria forma de ser. O “como eu lido com as coisas”. Somente um iniciado consegue perceber esses movimentos como uma forma de instabilidade ou dispersão pois lhe tiram do seu foco, de sua meta que é um estado expandido de consciencia: o samádhi.
Nirôdha é supressão, mas encerrando um sentido de manter algo em determinado formato. Final de contas quando suprimimos o passo fora de uma linha estamos nos mantendo dentro dessa linha. Esse sentido inclusive é usado nas outras possibilidades de tradução: cerco, restrição, confinamento, etc. Assim podemos pensar que fazer nirodha nos chittavrittis é mantê-los em um determinado formato. E como chitta é muito mais do que somente mente, vamos precisar de técnicas que atuem no ego, na mente, no intelecto, em determinadas partes do emocional, enfim, não podemos somente usar um ramo de técnicas que atue na mente, pois assim ficará muito mais difícil fazer “nirodha” em todo o resto que não está sendo treinado diretamente para manter uma linha.
Todo o arcenal de técnicas que o Yôga dispõem como: vocalizações, mentalizações, meditação, técnicas de limpeza, técnicas corporais, linguagem gestual, etc. Tudo influência uma parte de chitta para que seus movimentos (vrittis) entrem em um determinado formato (nirôdha). Somente fazer um único tipo de técnica irá deixa uma área bem desenvolvida e outra sem cuidado algum. Algo como construir um prédio se preocupando mais com a decoração do que com o aço das fundações.

Para descontrair
Filme citado: A Dama da Água. Veja o que acontece com quem treina somente um braço. A história é a mais poética e linda que eu nos últimos tempos vi. Veja a oferta no submarino.com.
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agosto 4th, 2008 at 16:24
[...] vrttis na mente são como os redemoinhos de um lago. chitirmúrtimatí | sá chapratihatá [...]
julho 7th, 2008 at 16:13
[...] sofrimento humano e etc. Pátañjali através de sua obra deixa claro que o yôga visa a resolver a instabilidade da consciência e considera-a como fonte dos infortúnios humanos. Podemos pensar que segundo a ótica de [...]
dezembro 21st, 2007 at 11:21
[...] Supressão (nirôdha) da instabilidade (vritti) da consciência (chitta). Leia a explicação detalhada sobre este termo. [...]