Escrito em abril 16, 2009 | Categoria: Português, Principal
Vamos partir do princípio de que a regra vale para o grupo, mas nunca se encaixará 100% para o indivíduo.
O princípio da transgressão dentro da cultura shakta é transgredir as regras. Sem orientação isso vira uma festa do caqui.
O pilar da cultura shakta é a liberdade. Para ter liberdade plena, você precisa ter e dar opção. Como nós estamos em uma cultura patriarcal é difícil para nós vivenciar a liberdade de uma forma mais plena, pois acreditamos que na maioria dos casos só temos uma opção de “certo”. Isso é visto mais claramente nos relacionamentos afetivos e na sexualidade.
Um shakta não pode ser chamado de ovelha negra, pois nem ovelha ele é. Não optamos pelo politicamente correto, nem pelo politicamente incorreto, nós escolhemos o que faz mais sentido para aquilo que desejamos alcançar.
Como estamos imersos na cultura patriarcal isso gera alguns problemas. Senti isso quando escrevi o post sobre saudades e sobre relacionamento aberto. Quando eu digo que não sinto saudades na cabeça de alguém treinado pela cultura patriarcal ele pensa: “como eu sinto saudades, ele está dizendo que eu estou fazendo errado!” e reage de uma forma emocional as vezes violenta. Mesmo que o violento aqui seja somente falar alguns desaforos e ficar indignado.
Na realidade eu nunca falei que minha forma é a certa e que a do outro era errado, eu só estou sendo liberto, ou seja: dando opções.
A referência da pessoa é que só existe um certo e o resto é errado. Se alguém sugere um procedimento que foje ao que estamos acostumados ou ao que é considerado politicamente correto, isso gera uma reação de defesa na pessoa, pois ela precisa defender o seu certo. Para um shakta, nada necessariamente é certo e nada é necessariamente é errado, são opções que ele pode ou não fazer ou aceitar, mas nunca irá obrigar alguém a fazer aquilo que ele faz.
No cotidiano, nossa referência de procedimento é que as pessoas nos obriguem a fazer o “certo”. Sempre escutamos de nossos professores e familiares: “você não pode ser assim” ou “isso está errado, você tem que fazer assim.”
Como as pessoas sempre escutam frases assim, ao escutar um shakta falando sobre relacionamento aberto, ele automaticamente escuta: “você tem que ter um relacionamento aberto”. Mas não é assim! É uma opção, nada mais.
Isso gera um bafafá gigante. Possivelmente a frase que direi a seguir irá instigar o sistema de defesa de alguns: “o cachorro na coleira sempre late para o que anda solto na rua”
A transgressão é o mecanismo para treinarmos nossa habilidade de nos adaptar a uma regra levando em conta a nossa realidade.
Para treinar podemos usar desde regras bobas até coisas mais internas. O que eu acho mais importante é que ao ouvir uma regra você consiga adaptá-la a sua realidade sem deixar de fazê-la. Essa é a transgressão máxima.
A forma mais tosca de transgressão é a sociedade acordar que você só pode atravessar a rua na faixa e você só atravessa fora dela e ainda soltar fogos de artifício para mostrar para todo mundo que você atravessa a fora da faixa. O objetivo aqui é obter o mesmo resultado (atravessar a rua) sem morrer para demonstrar que é possível ter “dois certos”. Plenamente tosco, mas por uma certa ótica válido.
A forma mais refinada de transgressão é por exemplo: a sociedade esperar de você um rostinho bonito, uma roupa de marca, um carro importado mesmo que isso signifique ter a cabeça oca e virar escravo do consumismo e da moda. A transgressão refinada aqui é ter um rostinho bonito, usar uma roupa de marca e ter um carro importado para gerar algo positivo, para abrirem as portas que permitam você mostrar o seu conteúdo. Ao invés de ser escravo da moda, ser senhor dela e usar a sua força para fazer os ventos soprarem em suas velas.
É a parte mais difícil do treinamento. Bom senso é muito subjetivo e os adeptos da cultura shakta pagam pesados ônus pelos nonsenses que acham que transgressão é anarquia e fazem as formas mais toscas e primárias de transgressão e acham que estão abafando.
Se esbarrar com alguém fazendo coisas sem noção ele é isso mesmo: um Joselito que ainda não aprendeu direito como funciona o mecanismo da transgressão.
Dependendo do nível de repressão ao qual você foi criado as vezes é necessario usar-se das maneiras menos refinadas de transgressão para tomar um choque e então começar a criar os mecanismos que irão desrreprimir o seu comportamento e treinar sua tempera para libertar.
Lembre-se: liberdade é ter e principalmente propciar liberdade.
Por favor, use muito o seu bom senso.
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março 1st, 2010 at 12:54
È bem provavel que iniciou tais atitudes sem perceber os efeitos que teriam,isso por puro desejo de libertação dadas as pressões recorrentes que a pertubavam. Não sei se houve algum incentivou ou orientador, mas , se houve não soube conduzi-la. O fato é que preciso ajuda-la de alguma forma. Não se trata só de uma amiga mas daquela que amo. Concordo com os termos de bom senso no enunciado, mas prefiro comprimir minha observação á tensões que todo ser pode sofrer. Seu texto foi muito bem elaborado, eu pude compreender, mas honestamente não sei como socorrer a ela…
Ajude-a a entender os medos que ela tem… É o primeiro passo para entender a “rebelião”. Depois ela precisa entender como vencê-los e concomitantemente ela precisa fazer algo para fortalecer emocional, mental e ego. A máxima deste processo é: não importa o que aconteceu, importa é o que você faz com o que aconteceu. E sempre ter em mente a pergunta: o que eu quero que aconteça?
Abraços e boa sorte.
fevereiro 26th, 2010 at 10:17
Muito interesssante toda teoria em torno da pratica da trangressão. Mas, tenho uma objeção. Me corrija caso estiver errado; tudo bem até aogora, onde chegar a um caminho objetivado tenha não só um trajeto(me refiro a padrões estéticos sociais impostos pelo sistema social capitalista e familiar nuclear patriarcal), e sim variados, se observado a possibilidade de evitar conflitos com a liberdade do outro. Ocorre que acompanhei de perto o que aqui é tratado como trangressão na vida de uma amiga, detalhe: sofria cobrança exorbitante de seus pais em questões como carreira e vida pessoal(escolha de melhor partido), ela radicalizou e isso virou a vida dela de pernas pro ar.
Como eu disse no texto.. o bom senso é a parte mais difícil do processo… E todas as nossa escolhas geram consequencias. Certamente o que sua amiga fez foi como no exemplo que eu dei: ela atravessou a rua fora da faixa só para transgredir e ainda fez bunda lele para quem passava… Ou seja… sem bom senso… em determinadas coisas faz sentido em outras dá um resultado muito errado.
Ela tinha alguém auxiliando ela neste processo? Alguém que sabe como lidar com o ego em treinamentos assim? ou fez por conta?
Agora arque com as consequências
maio 15th, 2009 at 16:15
Hummm… Talvez eu não tenha intendido, porque não possuo os alicerces internos para tal…
Vejamos se esse gravatar funciona…
Obrigado pela sugestão quanto ao nome em dêvanagari. Eu estava errando na digitação… Ups!
hahaha
विनिस्युस पेसोव
मार्को कर्वल्यो
maio 15th, 2009 at 1:15
[...] convicto, como shakta nunca concordaria em cercear as opções e escolhas alheias. Eu ja falei que liberdade é muito mais dar opção do que supostamente fazer o que [...]
maio 14th, 2009 at 19:08
Belo post, Marco!
Esse assunto muito me interessa. Me embolei a partir da frase: E o que tudo isso tem haver com transgressão?
Pra mim ficou vago… não consegui entender… Li e reli várias vezes, mas realmente não compreendi nada a partir desse ponto. [Fique a vontade para excluir meu comentário] Não sei se foram os exemplos, ou se a minha linha de raciocínio foi pro beleléu… Esse é o primeiro texto seu que foi agradável até certo ponto, e depois me causou uma constipação cerebral… (hahaha)
Quando você presenciar vai entender. Conceitos abstratos precisam de tempo de maturação e muitas vezes mais exemplos e menos palavras.
Abraços
abril 20th, 2009 at 20:56
Pra não ficar só elogiando, vou bancar o chato (raridade):
Dúvidas liniguisticas: desrreprimir (Contudo…);
Dúvida conceitual: “bom senso” não implic em um “mau senso”, ou seja, novamente a dualidade? Ou ai j é diferene? Ta, filtrando o termo, eu entendi e concordo com o sentido.
abril 18th, 2009 at 9:16
Existem diferentes níveis de percepção também na Anarquia, assim como, acabamos de aprender que existem, na Transgressão.
abril 17th, 2009 at 9:58
Transgressão… talvez o conceito assuste, mas a prática é realizada todo dia, em pequenos gestos, por todos, às vezes sem que nem mesmo percebamos…
Agora, é mesmo uma força bruta que urge ser lapidada, senão é mais um Joselito com camisa do Che… e quem vos fala foi um anarco-punk feroz em anos juvenis até perceber que transgressão mesmo é ver o que todo mundo vê, mas pensar o que poucos pensam.
É como diz aquele grande filósofo, Rogério Skylab:
“eu estou por dentro porque estou por fora”.
abril 17th, 2009 at 9:50
Festa do caqui? hehe – gostei!